Uma notícia crucial para imobiliárias: o crédito imobiliário está novamente em ascensão. Indicadores mostram uma força crescente, mesmo com a taxa de juros ainda em patamares elevados. A experiência demonstra que muitos donos de imobiliárias só percebem essa mudança quando a concorrência já está à frente.
É fundamental analisar os números com precisão e fazer a pergunta que realmente importa: se a demanda aumentar, a sua imobiliária está pronta para crescer junto?
O que os números da Abecip e da CBIC mostram
A decisão de gestão deve se basear em dados, não em impressões de mercado.
Segundo a Abecip, o crédito imobiliário totalizou R$ 180,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, representando um aumento de 23% em comparação aos R$ 147,1 bilhões concedidos no mesmo período de 2025. Mais de 680 mil imóveis foram financiados no país, somando operações do SBPE, FGTS e recursos livres.
Dois motores principais explicam esse resultado:
- O SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo) financiou R$ 93,7 bilhões, um avanço de 29%. O crédito para construção dobrou, passando de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões, um crescimento de 107%. Isso indica que as incorporadoras estão acelerando novos empreendimentos, o que, futuramente, significará mais produtos para a sua carteira.
- O FGTS somou R$ 77,6 bilhões, com alta de 22%, financiando mais de 350 mil imóveis. O avanço foi impulsionado principalmente pelo programa Minha Casa, Minha Vida, que já responde por mais da metade dos lançamentos residenciais no país.
O resultado surpreendeu a própria Abecip, que revisou sua projeção de crescimento para 2026 de 16% para 25%, estimando concessões próximas de R$ 411 bilhões. Pela primeira vez, o FGTS pode se tornar a principal fonte de financiamento habitacional do país.
Do lado das vendas, a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) registrou 226.536 unidades residenciais novas comercializadas no semestre, uma alta de 5,4% em relação às 214.910 unidades vendidas em 2025. Os lançamentos, por outro lado, ficaram estáveis, com leve queda de 0,3%, totalizando 211,6 mil unidades.
O fato de as vendas estarem crescendo mais que os lançamentos significa que a oferta está sendo absorvida mais rapidamente do que está sendo reposta.
Por que este crescimento chama atenção, mesmo com juros altos
É notável que tudo isso esteja acontecendo com a Selic ainda em 14% ao ano. O Boletim Focus, do Banco Central, projetava a Selic em 13,75% ao final de 2026, com o primeiro corte do ciclo já precificado, indicando um alívio gradual, não uma reversão brusca.
Ou seja, o crédito está crescendo antes da queda relevante dos juros. Isso é sustentado principalmente pela ampliação de recursos do FGTS e do Fundo Social, além da resiliência da demanda por financiamento, mesmo em um ambiente de custo elevado.
Se a demanda já está reagindo com juros altos, o que acontecerá com a sua operação quando a Selic começar a cair de forma mais consistente? O crédito, por si só, não faz uma imobiliária crescer. Ele cria a condição. Quem transforma essa condição em resultado é a empresa que está preparada operacionalmente para atender à demanda no momento em que ela surge, e não seis meses depois.
Crédito não é uma etapa burocrática da venda
Por muito tempo, o financiamento foi tratado em muitas imobiliárias como algo que ocorre depois que o corretor "fecha" o negócio. O cliente escolhe o imóvel, o corretor negocia, a proposta é aceita e só então se inicia a conversa sobre financiamento.
Essa abordagem é um erro estrutural. Para uma parcela significativa dos compradores, a capacidade de financiamento determina o imóvel que podem adquirir. Portanto, o crédito precisa fazer parte da conversa muito antes da proposta.
Isso não significa transformar o corretor em um especialista financeiro. Significa treiná-lo para compreender minimamente o perfil do comprador, reconhecer as principais modalidades disponíveis, como SBPE, FGTS, Minha Casa, Minha Vida e consórcio, e saber o momento exato de encaminhar o cliente para quem pode orientá-lo com profundidade técnica. O financiamento é parte integrante da venda, não um apêndice.
A pergunta que poucas imobiliárias fazem: onde está a demanda que me interessa
Os números nacionais não crescem da mesma forma em todos os segmentos, um detalhe frequentemente ignorado pela gestão. O Minha Casa, Minha Vida já responde por mais da metade dos lançamentos residenciais do país, com participação ainda maior em diversos mercados regionais. Olhar apenas para a manchete "o crédito está crescendo" é insuficiente para decidir onde investir o esforço comercial. Cada imobiliária precisa olhar para o próprio mercado e responder com dados, não com percepções:
- Qual faixa de preço está vendendo mais na minha região?
- Qual percentual da minha carteira se enquadra em programas habitacionais?
- Quantos imóveis do meu estoque são efetivamente financiáveis nas condições atuais?
- Quantos clientes deixei de converter nos últimos meses por dificuldade de aprovação de crédito, e não por falta de interesse no imóvel?
Essas respostas orientam a gestão comercial de forma muito mais precisa do que qualquer indicador nacional isolado.
A oportunidade que provavelmente já está no seu CRM
Há uma grande chance de que sua imobiliária já tenha, em seu sistema, centenas de contatos que demonstraram interesse em comprar, mas não finalizaram a compra. Alguns desistiram, outros adiaram, e alguns simplesmente não encontraram uma condição de financiamento que fizesse sentido na época.
Imagine revisitar essa base, não com uma mensagem genérica como "temos novos imóveis disponíveis", mas com uma abordagem específica: as condições de crédito mudaram, e talvez valha a pena reavaliar aquele imóvel que você estava buscando. Essa mudança simples de estratégia tem impacto direto no resultado: a imobiliária deixa de depender exclusivamente da geração de novos leads e passa a trabalhar também a demanda que já foi conquistada e que está aguardando o gatilho certo.
Reveja o seu estoque com outros olhos
Uma imobiliária preparada para um ciclo de maior demanda não deveria se perguntar apenas "quantos imóveis temos disponíveis". As perguntas certas são outras:
- Quantos desses imóveis estão dentro das faixas de maior demanda hoje?
- Quantos são financiáveis nas condições atuais de crédito?
- Os preços estão competitivos frente ao que o mercado está absorvendo?
- Quais imóveis estão parados há mais tempo, e por quê?
- Quais proprietários precisam ser reorientados sobre preço e condições de mercado antes que a oportunidade passe?
Essa análise transforma o estoque em estratégia comercial, revelando negócios que já estavam disponíveis na carteira, mas que não estavam sendo trabalhados sob a ótica correta.
O cockpit da imobiliária diante do próximo ciclo
Assim como um piloto não conduz um avião apenas pelo que vê pela janela, mas sim por instrumentos e pelo painel, a mesma lógica se aplica à gestão de uma imobiliária diante de um ciclo de crédito em expansão. Não basta sentir que "o mercado está aquecendo". É preciso acompanhar, com regularidade, os sinais que realmente importam:
- Percentual de propostas travadas por questões de crédito.
- Tempo médio entre proposta e aprovação.
- Taxa de conversão por faixa de financiamento.
- Giro do estoque financiável.
Esses números formam o painel que permite ao gestor agir antes que a oportunidade se torne notícia velha, e antes que o concorrente perceba primeiro.
Conclusão
O crescimento do crédito imobiliário não é apenas uma boa notícia econômica, mas um chamado à preparação. Entre a oportunidade e o resultado, existe uma imobiliária que precisa ter estoque adequado, equipe preparada para discutir financiamento com naturalidade, processos organizados e capacidade de acompanhar o cliente até o fechamento. Quando a demanda aumentar de forma mais consistente, será tarde para começar a organizar a operação.
A pergunta que todo dono de imobiliária precisa fazer hoje não é "o mercado vai crescer?". É: "Se crescer, a minha imobiliária está pronta para crescer junto?". Essa diferença é o que vai separar quem vai aproveitar o próximo ciclo de quem vai simplesmente assistir o mercado crescer de fora.
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Perguntas frequentes
O crédito imobiliário realmente cresceu em 2026, mesmo com juros altos?
Sim. Segundo a Abecip, o crédito imobiliário somou R$ 180,9 bilhões no primeiro semestre de 2026, uma alta de 23% frente ao mesmo período de 2025, mesmo com a Selic em 14% ao ano. O crescimento foi puxado principalmente pela ampliação de recursos do FGTS, ligada ao Minha Casa, Minha Vida, e pela recuperação do crédito via SBPE.
Por que as vendas de imóveis cresceram mais que os lançamentos?
Porque a demanda está absorvendo o estoque disponível em ritmo mais rápido do que as incorporadoras estão lançando novos produtos. A CBIC registrou alta de 5,4% nas vendas contra uma leve queda de 0,3% nos lançamentos no primeiro semestre de 2026, um sinal de estoque se reduzindo em diversas praças.
O que uma imobiliária deveria fazer diante deste cenário de crédito em expansão?
Três frentes concretas: revisar o estoque sob a ótica de financiamento (quais imóveis são financiáveis e em quais faixas), treinar a equipe comercial para tratar crédito como parte da conversa de venda desde o início, e reativar a base de clientes que não converteu anteriormente por dificuldade de aprovação de crédito.
A queda da Selic vai acelerar ainda mais o crédito imobiliário?
As projeções do Boletim Focus, do Banco Central, indicavam a Selic encerrando 2026 em torno de 13,75% ao ano, com o início de um ciclo gradual de cortes. Como o crédito já está crescendo antes dessa queda mais consistente, a tendência é que a demanda se intensifique à medida que os juros recuarem, o que reforça a importância de a imobiliária se preparar operacionalmente antes desse movimento, e não depois.
