20 anos da Lei Geral: Crescimento sem gestão na imobiliária
Uma imobiliária deixa de operar como "pequeno negócio" quando a equipe toma as decisões recorrentes com critérios e indicadores claros, sem depender do dono. Crescer em carteira, equipe e faturamento sem isso só aumenta a dependência do fundador.
Em 16 de setembro, o Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano, em decisão unânime. O corte é pequeno, de 0,25 ponto percentual, e o próprio Banco Central pede cautela quanto aos próximos passos. Mesmo assim, o sinal importa: juros em queda tendem a devolver fôlego ao crédito imobiliário e, com ele, mais demanda para a venda e para a locação.
Esse movimento não pergunta o tamanho da sua equipe. Pergunta se a sua operação aguenta mais volume sem que cada exceção termine na mesa do dono. E 2026 é um bom ano para fazer essa pergunta. Em 5 de outubro, celebramos o Dia Nacional da Micro e Pequena Empresa, e em 14 de dezembro, a Lei Geral (Lei Complementar 123/2006) completa 20 anos. Vinte anos de uma lei que ajudou muita imobiliária a nascer pequena. A questão agora é saber quantas conseguiram deixar de ser pequenas na gestão.
Por que tantas imobiliárias crescem em tamanho, mas não em gestão?
Segundo o Sebrae, o Brasil tinha cerca de 24,1 milhões de pequenos negócios em 2026. No Atlas dos Pequenos Negócios, a instituição estimou que eles respondem por cerca de 30% do PIB. O presidente do Sebrae, Carlos Melles, lembrou na ocasião que, em países desenvolvidos, essa participação fica entre 40% e 50%.
Eu leio essa diferença também como um problema de gestão. Empresa pequena que cresce sem método costuma travar no limite de energia de uma pessoa. No setor imobiliário, isso é ainda mais comum, porque a maioria das imobiliárias nasce na operação.
O fundador era corretor, captava, vendia, acompanhava o financeiro e conhecia cada proprietário pelo nome. Esse modelo funciona enquanto a empresa cabe na cabeça de quem a criou. Depois, a carteira cresce, entram mais corretores, a locação ganha volume.
O que muda nesse caminho é o número de decisões por dia, e elas continuam afunilando no mesmo lugar. A equipe responde com frases que você provavelmente reconhece: "só o dono autoriza", "vou ver com ele", "essa exceção é com ele".
O que é o teste dos 30 dias e o que ele revela sobre a gestão da imobiliária?
Estrutura é ter sede, CRM, gerente comercial e coordenador de locação. Autonomia é a equipe decidir bem sem você.
Costumo propor o teste dos 30 dias: se você ficasse 30 dias afastado, a imobiliária continuaria apenas aberta ou continuaria funcionando? A diferença entre as duas coisas é a medida de maturidade da gestão. (Detalhei o teste em "O Dia em Que Você Não Estiver na Imobiliária Vai Revelar a Empresa Que Você Realmente Construiu").
Delegar não é passar tarefa. Delegar é entregar quatro coisas: responsabilidade, autoridade, critério de decisão e indicador de acompanhamento. Sem critério, o gestor tem apenas um título.
A locação mostra bem isso. Considere o reajuste anual. A Lei do Inquilinato exige intervalo mínimo de 12 meses e o índice previsto em contrato, em geral IGP-M ou IPCA. Só que esses índices se descolam.
O IGP-M, calculado pela FGV IBRE, pesa o atacado (IPA, 60%), o consumidor (IPC, 30%) e a construção (INCC, 10%), por isso é sensível a câmbio e a preços de matérias-primas. Em julho de 2026, ele caiu 1,16% no mês e acumulava 2,76% em 12 meses. O Copom, por sua vez, projeta IPCA de 5,2% para 2026 no cenário de referência.
Com dois índices andando em ritmos tão diferentes, proprietário reclama, inquilino negocia e o contrato vence. Se a imobiliária não tem regra definida (qual índice, qual teto, até que ponto pode negociar, quem aprova o quê), toda renegociação vira consulta ao dono. Com regra e indicador, isso vira rotina da equipe. O mesmo vale para desconto em venda, política de vacância e tratamento da inadimplência.
O que é a síndrome das ilhas e como ela trava o crescimento?
Quando a empresa cresce sem método, cada área passa a funcionar como uma ilha. O comercial pensa que sua parte termina na venda. A locação cuida dos contratos e espera que o comercial resolva o resto. O marketing gera lead e, se não converte, a culpa é de vendas. O administrativo confere documentos.
O cliente não enxerga departamentos, enxerga uma única imobiliária. Se a análise cadastral demora ou a captação chega ao anúncio com informação errada, a experiência inteira foi ruim, e quem recebe a reclamação é o dono. É assim que ele acaba apagando incêndio em vez de dirigir a empresa.
Como as quatro forças do voo explicam o equilíbrio da imobiliária?
Quando estudei pilotagem no Aeroporto do Bacacheri, em Curitiba, aprendi que um avião só voa quando quatro forças estão em equilíbrio. Na Metodologia Imobiliária 360°, uso essa lógica para explicar a empresa:
- Força: Na aviação, na imobiliária
- Sustentação: Mantém o avião no ar, reputação, carteira de locação ativa, receita recorrente
- Tração: Faz o avião avançar, marketing, captação, força comercial, expansão
- Peso: Puxa para baixo, custos fixos, folha, estrutura, sistemas
- Arrasto: Resiste ao avanço, burocracia, retrabalho, falta de dados, dependência do dono
O erro mais comum é acelerar a tração, investindo em captação e anúncios, antes de arrumar a casa. Se o peso cresce mais rápido que a sustentação e o arrasto ficam altos, mais motor só consome mais combustível. E a dependência do dono é um dos maiores arrastos que uma imobiliária carrega.
Em que estágio de maturidade está a sua imobiliária?
O Modelo Angular da Metodologia 360° organiza a evolução em cinco estágios:
- No 30° (sobrevivência operacional), tudo depende do esforço do dono.
- No 90°, surgem os primeiros processos.
- No 180°, os papéis ficam claros e os indicadores passam a orientar decisões.
- No 270°, o dono atua como gestor estratégico e a empresa expande com segurança.
- No 360°, ela opera como sistema integrado e não precisa da presença constante do fundador.
Muitas imobiliárias com carteira grande e equipe numerosa ainda estão no 90°. O tamanho cresceu e a maturidade não acompanhou.
Como profissionalizar a gestão da imobiliária na prática?
Três movimentos costumam destravar a maior parte do problema:
- Liste as últimas 10 decisões importantes e marque quais só você poderia ter tomado. O restante é candidato à delegação.
- Escreva o critério de cada decisão recorrente: faixa de desconto, política de reajuste, limite de negociação, prazo de resposta.
- Dê um indicador a cada área: conversão comercial, vacância, tempo médio de locação, inadimplência, satisfação do cliente.
Conclusão
Crescer é aumentar carteira, equipe e faturamento. Amadurecer é reduzir a dependência de uma única pessoa, e os 20 anos da Lei Geral são um bom momento para medir isso. Estrutura sem autonomia só adiciona camadas entre o problema e o dono. A queda gradual da Selic tende a trazer mais volume, e quem não tem critério e indicador sentirá o gargalo antes de aproveitar a oportunidade. Avalie em que estágio sua imobiliária está e o que ajustar primeiro, conhecendo a Metodologia Imobiliária 360° e o livro "Do Fundador ao Sucessor: Estratégias para o Sucesso nas Imobiliárias Familiares". Visite também rosalvobarreto.com.br.
Perguntas frequentes
Minha imobiliária ainda é pequena. Já devo pensar em processos e indicadores?
Sim. Estruturar critérios e indicadores com poucas pessoas é muito mais simples do que reorganizar uma operação que já cresceu com improviso.
Como começar a dar autonomia à equipe sem perder o controle?
Defina critérios e limites por escrito (descontos, reajuste, prazos) e um indicador por área. Autonomia com regra clara aumenta o controle, porque você passa a acompanhar resultados em vez de aprovar cada caso.
Qual a diferença entre ter um gerente e ter um gestor?
O gerente acompanha tarefas. O gestor decide dentro da sua área, analisa indicadores, corrige desvios e responde pelo resultado.
Qual o maior erro de quem quer crescer rápido?
Investir em captação e marketing antes de organizar atendimento e processos internos. Mais volume numa operação desorganizada amplia o problema.
O reajuste do aluguel deve ser pelo IGP-M ou pelo IPCA?
Depende do que está no contrato. O reajuste só pode ocorrer a cada 12 meses e com o índice previsto. Por isso, a imobiliária deve ter uma regra clara na hora de redigir e renovar contratos.
